Aprender a pousar as mãos
Domingo, 2 de Maio de 1976
Domingo apresentou-se sem ruído, quase com pudor. Não trouxe novidades nem exigiu decisões. Limitou-se a existir — e isso, por estes dias, já é muito. Senti-me um pouco mais liberto, não no sentido triunfal da palavra, mas naquele alívio discreto que se sente quando a corda deixa de apertar o pescoço e passa apenas a roçar a pele. As emoções continuam presentes, mas perderam o ímpeto de dominar tudo. Já não comandam; sugerem. É um caminho em progresso, lento, sem mapa, feito mais de aceitação do que de conquista.
Passei grande parte do dia entregue à leitura. Ler, para mim, nunca foi passatempo: é abrigo. Cada página funciona como uma pausa no mundo real, um intervalo onde posso existir sem ser observado. A música acompanhou-me como sempre, preenchendo os silêncios que não pedem palavras. Como sempre não escolhi as canções — deixei que elas me escolhessem, como se soubessem exactamente onde tocar.
A certa altura peguei na viola que o Manel me emprestara. Não houve plano, nem ambição. Apenas curiosidade. As mãos ainda estranhas ao instrumento procuravam posições impossíveis, os dedos magoavam-se sem queixas, as cordas respondiam com sons incertos, quase envergonhados. Não toquei música; toquei tentativa. E percebi, com uma clareza desconcertante, que experimentar não é comprometer-se.
Na minha juventude, começar algo novo raramente significou levá-lo adiante. Há em mim uma facilidade em iniciar e uma resistência silenciosa em continuar. Talvez porque tocar numa coisa não é o mesmo que abraçá-la. As mãos são impulsivas, curiosas, volúveis. O coração é mais cauteloso — quando se entrega, quer garantias que a vida nunca dá. As ideias passam com leveza, mudam de forma, perdem-se no tempo sem grande alarido. As emoções não. Essas instalam-se fundo, ferem, deixam marcas invisíveis. E exigem tempo. Muito tempo. Sarar não é apagar a dor; é aprender a conviver com ela sem que nos governe.
A viola acabou por regressar ao canto do quarto. Não houve frustração nem promessa adiada. Apenas a constatação tranquila de que nem tudo o que tocamos nos pertence. Fiquei sentado, a ouvir o eco do que não chegou a ser som. E pela primeira vez em muitos dias, isso não me incomodou.
Terminei o domingo assim: sem pressa, sem expectativas, um pouco mais inteiro. Não melhor, não resolvido — apenas mais próximo de mim. Amanhã será outro dia. Não sei o que trará. E, estranhamente, hoje isso basta.
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