Liberdade sem Ruído

Sábado, 1 de Maio de 1976

Dia do Trabalhador. Dia da Liberdade.
O povo sai à rua, ergue vozes, bandeiras, palavras de ordem. Há alegria colectiva, visível, quase ruidosa. Eu regozijo-me também, mas por dentro. A minha festa não precisa de multidões.

Sinto-me livre de outra maneira.
Livre das amarras recentes, dos nós que me prenderam o pensamento e me toldaram o caminho. Algo se soltou, sem estardalhaço, como quem abre uma janela depois de muito tempo fechado num quarto.

Estou leve. Disponível. Presente.
O futuro já não me inquieta como antes. O que vier, virá. O que tiver de ser, será — e pronto. Não vale a pena discutir com o tempo: ele não responde.

O passado não se apaga, mas também não manda.
As aprendizagens ficam. As quedas também. A Dila é uma dessas aprendizagens. Importante. Definitiva. Não para repetir erros, mas para os reconhecer à distância, como sinais numa estrada que já percorri.

Houve emoções que me encheram por completo.
Outras que me fizeram tombar sem aviso. Nenhuma foi inútil. Todas me disseram quem sou, ou pelo menos quem não quero voltar a ser.

Hoje não há saudade que doa.
Há memória serena. Há consciência. Há chão.

E isso, afinal, também é liberdade.


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