Decisão sem Aplausos

Sexta-feira, 30 de Abril de 1976

Hoje foi um dia inteiro passado no liceu. Aulas atrás de aulas, sem sobressaltos, sem fugas, sem desculpas inventadas. Um dia cheio por fora e, curiosamente, mais leve por dentro.

Senti o espírito mais pacificado. Não por ter encontrado respostas — não as encontrei — mas porque deixei de as exigir. Decidi avançar. Sem devaneios. Sem fantasias sobre um futuro que não me deve nada. O que tiver de ser, será. Frase simples, quase pobre, mas hoje serviu-me como âncora.

Não serei mais prisioneiro de uma ideia. As ideias, quando se tornam jaulas, deixam de ser pensamento e passam a ser castigo.

A Dila pertence ao meu passado. Dizer isto não dói como antes. No presente, ela está ausente. É um facto. E os factos não discutem sentimentos, apenas ocupam espaço. Quanto ao futuro, vou esperar. Olhá-lo de frente, sem lhe pedir garantias. Ele que venha como souber. Estarei cá para o melhor e para o pior — não por heroísmo, mas por teimosia simples de quem não desiste de si próprio.

Sinto-me mais firme na minha vontade. Menos refém das emoções, mais atento à razão. Não é que as emoções tenham desaparecido — nunca desaparecem — mas deixei de lhes entregar o volante. Que sigam no banco de trás. Se falarem alto, paciência. Não mando parar o carro.

Hoje não foi um dia memorável. E ainda bem. Foi um dia de decisão silenciosa. Dessas que não dão aplausos nem música de fundo, mas que, com sorte, mudam o rumo da estrada.


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