Dias de silêncio, ecos surdos

Quinta-feira, 29 de Abril de 1976

Há dias que não pedem mais do que obediência. Este foi um deles. Cumpri as rotinas como quem cumpre um turno silencioso da alma.

A manhã passou entre páginas lidas e músicas ouvidas, essas companhias fiéis que não fazem perguntas incómodas. Ler é um esconderijo honesto. A música, essa, varre o pó dos pensamentos hostis que insistem em instalar-se, como vizinhos indesejados que não sabem a hora de ir embora.

À tarde, o liceu foi breve. Duas aulas apenas, suficientes para justificar a presença, insuficientes para deixar marca. Voltei cedo para casa, sem pressa, sem propósito maior. O trólei levou-me como sempre leva: suspenso entre paragens e pensamentos. E, como sempre acontece, trouxe-me memórias boas, dessas que aquecem por dentro mas doem logo a seguir. Tempos que para mim já são longínquos demais para ainda lhes tocar sem ferir.

A Dila voltou a ocupar-me a mente — como se alguma vez tivesse saído. Está lá, inteira, persistente. Mas o seu coração… esse já não me pertence. Ou talvez pertença apenas na ausência dela. Já não sou dela. Isso é claro como um dia sem nuvens. Mas a pergunta que fica é mais cruel: serei de alguém? Ou, pior ainda, serei alguma coisa?

Há dias assim. Não gritam. Não explodem. Apenas deixam um eco baixo, quase imperceptível, que nos acompanha até ao sono. Amanhã, talvez, esse eco mude de tom. Ou talvez não. O futuro também aprende a esperar.


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