O pensamento tropeça
Quarta-feira, 28 de Abril de 1976
A manhã passou devagar, como passam as coisas quando o espírito não tem pressa de chegar a lado nenhum. Li um livro sem grande método, mais para me segurar do que para aprender, e deixei o rádio ligado no Programa 2005, dedicado à música portuguesa. As canções iam dizendo verdades simples, dessas que não consolam, mas fazem companhia. Às vezes basta isso: não estar sozinho no silêncio.
De tarde fui para o liceu. Ou melhor, fui a caminho do liceu. A influência negativa do Benjamim — ou talvez apenas a minha própria falta de vontade — acabou por vencer. O meu estado de espírito já vinha curto de paciência e longo de cansaço. As salas cheias, o ruído, os professores, tudo me parecia excessivo, quase ofensivo. Faltei às aulas. Não por rebeldia gloriosa, mas por sobrevivência básica.
Fomos arejar a cabeça, eu e o Benjamim. O ar estava lá fora, mas dentro de mim continuava pesado. A conversa não ajudou muito. Quando o mal é fundo, nem a amizade consegue fazer milagres. Ainda assim, caminhar foi melhor do que ficar. O corpo mexe-se, o pensamento tropeça, e às vezes isso chega para não cair de vez.
Voltei para casa com aquela sensação estranha de que nada encaixa. As coisas estão todas no sítio certo, mas o sentido perdeu-se algures pelo caminho. Sinto uma sombra colada a mim, discreta, persistente, como se fosse minha e não fosse. Sei que preciso de me libertar dela. Se não o fizer, posso perder-me — e isso, curiosamente, nunca fez parte dos meus planos para o futuro.
O futuro… palavra grande para um dia pequeno. Mas ainda acredito nele. Mesmo quando o presente insiste em não colaborar.
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