Sinto-me um fóssil

Terça-feira, 27 de Abril de 1976

As aulas começaram hoje. Recomeçou o burburinho habitual, a marcha compacta dos estudantes, os passos apressados, as vozes todas ao mesmo tempo, como um enxame sem direcção. Mas não para mim. Hoje não entrei nesse rio. Fiquei na margem.

O meu estado de espírito não permitia o choque frontal com o mundo. Não tinha paciência para professores exigentes nem energia para fingir atenção. Havia dias em que o corpo obedecia e a cabeça faltava; hoje foi a cabeça que decretou greve geral. Sem piquetes, mas com convicção.

Chovia. Uma chuva miúda, persistente, daquelas que não lava nada, apenas insiste. O Benjamim apareceu, como sempre, pronto para qualquer desvio à normalidade. É uma má influência? Talvez. Ou talvez apenas alguém que não faz perguntas quando não há respostas.

Fomos para os arredores das minas de S. Pedro da Cova. À procura de fósseis. Martelo na mão, olhos no chão, costas curvadas como quem pede desculpa ao tempo. A terra abriu-se em camadas antigas, histórias comprimidas, restos de vidas que já foram urgentes e agora são apenas prova de que existiram.

Enquanto procurava pedras com memória, senti-me exactamente isso: um fóssil. Não um achado valioso, mas um vestígio esquecido. Algo que teve pulsação, desejo, fogo — e agora apenas conserva a forma. Uma reprodução endurecida de quem fui há pouco tempo e já parece distante.

Consegui afastar-me do mundo exterior. Não ouvi campainhas, não ouvi ordens, não ouvi vozes. Mas, com muita pena minha, levei comigo o pior companheiro possível: o meu mundo interior. Esse não conhece férias nem dias de chuva. Estava em ebulição, como magma sem saída, queimando devagar.

Pergunto-me, sem dramatismos inúteis mas com honestidade crua: o que será de mim?

Serei também eu um dia um registo enterrado? Uma peça esquecida numa gaveta empoeirada de um museu de corações abandonados? Uma legenda curta, mal escrita, que ninguém lê até ao fim?

Talvez. Ou talvez ainda não.

Os fósseis, afinal, sobrevivem ao tempo. E às vezes são encontrados quando já ninguém os procura.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »