As urnas do coração continuam seladas

Segunda-feira, 26 de Abril de 1976

Acordei tarde. Ou melhor: acordei cedo demais para quem adormeceu com os olhos colados aos números que iam caindo na televisão como migalhas de pão seco. Fiquei acordado até ao fim, como se o resultado das eleições pudesse, por contágio, alterar o resultado do meu próprio plebiscito interior. Não alterou.

No país, fez‑se a contabilidade da esperança. Uns ganharam, outros perderam, quase todos gritaram vitória. A democracia, dizem, saiu reforçada. Aqui dentro, não houve escrutínio transparente. As urnas do coração continuam seladas, vigiadas por uma carcereira bela, silenciosa, inflexível. Não me tortura. O que é pior: ignora-me. Não me concede sequer uma liberdade provisória, dessas que se anunciam e nunca chegam a cumprir-se. É prisão perpétua sem sentença escrita.

Senti o peso do dia logo de manhã. Uma espécie de cansaço que não vem do corpo, mas da insistência em esperar. A rua parecia mais calma, como depois de uma festa popular em que ficam apenas papéis no chão e promessas por varrer. As pessoas voltaram às suas rotinas com a naturalidade de quem acredita que amanhã será melhor. Eu voltei à minha com a lucidez desconfortável de quem sabe que amanhã será igual.

As horas passaram por mim como passam os comboios quando não temos bilhete: fazem barulho, levantam vento, seguem viagem. Não estive presente por inteiro. Estava ocupado a repetir a pergunta que não me larga: o que será de mim amanhã? E depois de amanhã? E nos dias que se seguem, em fila indiana, todos parecidos, todos vazios dela?

Há revoluções que mudam governos. Outras exigem mais coragem e menos bandeiras. A minha continua adiada. Não há comícios, não há palavras de ordem, não há sequer clandestinidade romântica. Há apenas este impasse teimoso, este amor imóvel, esta espera que já nem sabe bem o que espera.

Ao fim do dia, percebi que a verdadeira ressaca não vem das eleições. Vem da esperança mal dormida. Amanhã o sol voltará a nascer — faz isso com uma pontualidade irritante — e eu estarei aqui, a fingir normalidade, a cumprir horários, enquanto por dentro continuo encerrado na cela mais vigiada de todas: a do coração.

Dizem que o futuro se constrói passo a passo. Hoje limitei-me a ficar parado. Também isso cansa.


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