Liberdade com Algemas

Domingo, 25 de Abril de 1976

Acordei com o país em movimento. O ar vinha carregado de vozes, passos apressados, panfletos a baterem nas mãos como pássaros inquietos. As ruas eram um rio de gente: entra e sai, vai e vem, filas que serpenteavam com uma seriedade quase solene. Era dia de eleições. Dia de escolher o futuro com um papel dobrado.

Vi bandeiras, ouvi palavras grandes, promessas ainda maiores. Havia um entusiasmo quase infantil misturado com a gravidade dos adultos que já sabem que a liberdade dá trabalho. As urnas pareciam cofres onde se guardava esperança — e algum medo, também.

Eu, pequeno revolucionário de bolso, caminhava no meio disto tudo com outra batalha a travar. Enquanto os outros gritavam por liberdade, eu praticava o silêncio. Enquanto se falava de regimes derrubados, eu sentia o meu intacto, firme, vigilante. Um regime emocional sem eleições, onde o voto é sempre nulo e a decisão nunca me pertence.

A ditadura do coração não admite oposição. Tem uma carcereira atenta, que não dorme, que controla horários e pensamentos. As emoções ali dentro cumprem pena perpétua. Eu sei, porque sou um dos presos. Não uso cravos na lapela; uso um nó na garganta. Não marcho; arrasto-me.

Passei pelas mesas de voto com respeito, quase inveja. Que privilégio poder escolher. Dobrar um papel e acreditar que isso muda alguma coisa. No meu mundo, não há boletins. Há apenas a espera, esse acto político inútil. Votei em silêncio, claro. Votei como pude: desejando.

Ao fim do dia, o barulho foi baixando. As ruas cansaram-se. A revolução recolheu a casa. Fiquei eu, com a mesma prisão, o mesmo amor sem liberdade. Ri-me sozinho — humor negro, rápido, como convém — ao pensar que o país avançava e eu continuava aqui, parado na fronteira entre o que sinto e o que nunca digo.

A História seguiu. Eu fiquei. Amanhã há mais futuro para o país. Para mim, talvez. As revoluções, aprendi hoje, não acontecem todas no mesmo dia. Algumas demoram uma vida inteira.


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