Quando a dúvida ganha corpo

Sábado, 24 de Abril de 1976

O dia começou como todos os outros. Igual, previsível, sem promessa nem ameaça. Um desses dias que se atravessam quase em piloto automático. Tudo indicava que seria apenas mais um na contabilidade do tempo.

Mas bastou um instante para o desequilibrar.

Ia a caminho de casa do Manel quando os vi. A Dila estava a conversar com ele. Nada de extraordinário, dir-se-á. Pessoas falam. Amigos encontram-se. Mas para mim foi como um choque seco. Não parei. Não cumprimentei. Não avancei sequer. Dei meia volta e regressei a casa, amuado, encolhido dentro de mim. Timidez? Despeito? Insegurança? Provavelmente um pouco de tudo. E ainda mais coisas que não compreendo.

Em casa, o pensamento começou o seu trabalho ingrato. Porque é que ela agora não passa por minha casa? Porque é que comigo parece sempre haver um desvio, um cuidado excessivo, e com o Manel não? Porque é que falar com ele parece simples e comigo um obstáculo?

A dúvida instalou-se como uma infestação lenta. Tentei ser racional, dizer a mim próprio que isto podem ser acasos, coincidências, leituras exageradas de quem está emocionalmente cansado. Talvez esteja a ficar paranóico. Talvez esteja a inventar histórias onde só há caminhos cruzados ao acaso.

Mas o corpo não acredita muito nessas explicações. O mal-estar ficou. Uma ansiedade surda, um aperto no peito, uma sensação de estar a ser excluído sem aviso prévio. Não saber o motivo é o que mais dói. Se houvesse uma razão clara, talvez pudesse aceitá-la. Assim, resta-me este terreno instável onde tudo parece possível e nada é certo.

Hoje percebi uma coisa com desconforto: isto está a fazer-me mal. Não de forma dramática, mas persistente. Vai-se infiltrando nos dias, rouba-lhes a leveza, contamina até os momentos neutros.

Não sei se é a Dila que se afasta ou se sou eu que já não sei aproximar-me. Sei apenas que este jogo de silêncios e desvios está a desgastar-me. E quando o coração começa a cansar, até os dias iguais deixam de o ser.


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