Não feliz, mas funcional

Sexta-feira, 23 de Abril de 1976

Mais um dia de férias. Desses que acordam vazios e não se dão ao trabalho de se preencher sozinhos.

A manhã correu melhor do que esperava. Desenhei. Muito. Com mais entrega do que nos dias anteriores. As mãos obedeceram, os traços saíram mais seguros, como se alguma coisa dentro de mim tivesse decidido cooperar. A música do rádio completou o cenário — não escolhi canções, aceitei-as. Vieram como vieram, e isso bastou. Por algumas horas, senti-me alinhado, quase inteiro. Não feliz, mas funcional. Que, nestes dias, já é uma vitória discreta.

À tarde, os meus amigos apareceram em minha casa. Como se adivinhassem o meu estado de espírito — ou talvez porque também precisavam de qualquer coisa parecida. Vieram munidos cada um com a sua viola. Não foi combinado, mas foi perfeito. A casa encheu-se de som, de acordes mal afinados, de vozes que arriscavam mais do que sabiam. Tocamos até ao fim do dia. Sem palco, sem plateia. Apenas para estar.

Durante aquelas horas senti-me protegido. A música, quando partilhada, tem este poder raro: suspende o tempo e cala as perguntas. Não falamos daquilo que pesa. Não foi preciso. As cordas disseram por nós.

Mas a noite chegou. E com ela, o quarto. A solidão voltou a sentar-se comigo, sem pedir licença. Desta vez, a música já não bastou. As emoções acumuladas destes últimos dias regressaram em bloco, sem ordem nem piedade. A confusão, a dúvida, a sensação de rejeição mal explicada, tudo isso voltou a ocupar espaço.

Deitado, percebi que o dia me tinha segurado, mas não me tinha salvo. E talvez não fosse essa a sua função. Há dias que apenas nos impedem de cair mais fundo. E hoje foi um desses.

Adormeci com esta certeza incómoda: a companhia ajuda, a arte ampara, a música sustém. Mas há noites em que nada substitui aquilo que falta. E o nome dessa falta continua a ecoar no silêncio.


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