Linhas para não pensar
Quinta-feira, 22 de Abril de 1976
Retomei o desenho como quem regressa a casa depois de muito tempo fora. Não houve entusiasmo, mas houve alívio. Ao pegar no lápis senti uma espécie de silêncio interior, raro e precioso. As emoções, que nos últimos dias andavam soltas e cansativas, ficaram em suspenso. Desenhar não me trouxe alegria, mas trouxe controlo. E quando se anda emocionalmente à deriva, o controlo é quase um luxo.
Enquanto desenhava, apercebi-me de que não estava a criar nada bonito nem terminado. Eram traços interrompidos, figuras incompletas, perspectivas erradas. E isso incomodou-me menos do que seria de esperar. Talvez porque, no fundo, eu próprio me sinta assim: incompleto, desalinhado, em esboço. Desenhar tornou-se um espelho discreto do que sou agora.
À tarde, o passeio com os meus amigos foi uma tentativa de normalidade. Caminhamos sem destino porque nenhum de nós tinha realmente vontade de chegar a lado nenhum. Senti-me acompanhado, mas não acompanhado por inteiro. Há uma solidão que não desaparece mesmo quando se está rodeado de gente. Ri, falei, ouvi — mas tudo com uma distância estranha, como se estivesse ligeiramente atrasado em relação ao momento.
Ao regressar a casa, veio a necessidade de recolhimento. No quarto, sozinho, deixei cair a máscara do convívio e abracei a música com mais intensidade do que nos outros dias. Hoje, a música não foi apenas fundo sonoro. Foi refúgio. Cada melodia parecia tocar num ponto que eu não sabia qual. Não me curou, mas amparou-me.
Senti uma mistura difícil de explicar: tristeza sem desespero, cansaço sem revolta, uma aceitação melancólica do estado em que me encontro. Não lutei contra isso. Deixei que estivesse. Talvez seja este o primeiro passo para que um dia deixe de estar.
Hoje percebi que não estou a tentar ser feliz. Estou apenas a tentar não me perder de mim. E, por agora, desenhar, caminhar e ouvir música são as âncoras que ainda me prendem ao chão.
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