Uma tristeza difusa

Quarta-feira, 21 de Abril de 1976

O dia não trouxe factos, mas trouxe peso. E às vezes é isso que fica.

De manhã, em casa do Manel, senti-me presente apenas por hábito. Estava ali, mas não estava inteiro. As palavras iam e vinham sem deixar rasto, como passos na areia molhada. Ri quando era suposto rir, concordei quando era mais fácil concordar. Por dentro, porém, havia um cansaço mudo, um desejo vago de estar noutro lugar — embora não soubesse qual.

À tarde, fechado no quarto, o silêncio começou a falar mais alto. Os recortes de jornal ocuparam-me as mãos, a leitura tentou ocupar-me a cabeça, e a música ficou encarregue de me ocupar o resto. Não escolhi canções alegres nem tristes. Escolhi sons que não exigissem nada de mim. Apenas isso.

A chuva lá fora ajudou. Sempre ajuda. Há qualquer coisa de reconfortante em saber que o mundo exterior está tão cinzento quanto o interior. Como se, por uma vez, não houvesse desfasamento entre o que sinto e o que vejo. Chovia sem raiva, sem urgência. Uma chuva resignada. Exactamente como eu.

Senti uma tristeza difusa, sem causa directa, o que é sempre pior. Não é dor aguda — essa ao menos explica-se. É antes um vazio cansado, uma sensação de estar suspenso entre o que foi e o que não chega a ser. Pensei na Dila, claro. Não de forma obsessiva, mas como se pensa numa ausência que já se tornou hábito. E isso assusta um pouco: quando a falta começa a parecer normal.

Hoje senti-me desligado do mundo, mas também de mim. Como se estivesse a observar a minha própria vida através de um vidro embaciado. Sei que estou ali, mas não consigo tocar em nada com clareza.

Talvez amanhã passe. Talvez não. Hoje limitei-me a aceitar esta chuva interior, sem lhe pedir explicações. Às vezes, sentir é apenas isto: ficar quieto enquanto o tempo faz o seu trabalho.


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