Entre o tempo e o depois
Terça-feira, 20 de Abril de 1976
Mais um dia para passar o tempo. E o tempo, disciplinado, deixou-se passar.
Tenho vindo a ganhar gosto pelos casos insólitos. Há qualquer coisa neles que me chama — talvez o facto de não terem resposta imediata, talvez porque apontam para um mundo que escapa à lógica comum. Criei uma pasta com recortes de jornal: fenómenos estranhos, relatos improváveis, acontecimentos que ninguém explica direito. É uma boa ocupação. Mantém-me entretido e, sobretudo, impede-me de pensar no que não quero pensar. Às vezes isso já é muito.
Tenho tido também outra actividade, esta mais estranha e sem manual de instruções. Quando estou sozinho, saio de casa e vou até ao cemitério. Entro sem pressa e vagueio entre campas e jazigos, leio nomes, datas, silêncios. Não sei porquê. Não procuro ninguém. Não fujo de ninguém. Simplesmente ando.
Não sinto medo. Nem tristeza. Há ali uma calma honesta. Tudo está resolvido naquele lugar. Não há expectativas, nem desencontros, nem pessoas a evitar outras pessoas. Talvez por isso me sinta conformado com a vida quando ali estou. E se assim é — pergunto-me — por que não vislumbrar o depois dela?
Não é morbidez. É curiosidade serena. Como quem olha para o fim do caminho para perceber melhor onde está agora. O cemitério não me fala de morte; fala-me de limite. E os limites, estranhamente, sossegam-me.
Hoje foi isto. Recortes de jornal, passos entre campas e um pensamento persistente: talvez haja mais ordem no depois do que neste agora confuso. Ou talvez não. Mas pensar nisso ajuda-me a atravessar o dia. E, por enquanto, chega.
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