O refúgio do futuro

Segunda-feira, 19 de Abril de 1976

De manhã, o meu espírito pediu duas coisas simples e difíceis: calma e esquecimento. Não soluções, não respostas. Apenas silêncio interior. Dei-lho da melhor forma que sei — abrindo um livro. A leitura tem esta virtude limpa: afasta o ruído e, sem pedir licença, introduz conhecimento, mesmo quando vem disfarçado de fantasia.

Li O Ano 3000, de Paolo Mantegazza. Um futuro imaginado, mas pensado com seriedade. Fiquei preso a uma ideia que me acompanhou o resto do dia: o progresso só é completo quando o avanço técnico caminha ao lado da ética e do bem-estar humano. Sem isso, é só maquinaria com pressa. Gostava de acreditar — e talvez ainda acredite — que o conhecimento humano acabará por construir um paraíso na Terra. Não por milagre, mas por lucidez. Ainda que às vezes pareça que fazemos tudo para adiar esse dia.

O resto do tempo foi gasto a saltitar entre minha casa e a do Manel. Jogos, conversas sem interesse, palavras lançadas ao ar apenas para preencher vazios. Não havia objectivo, nem vontade de o ter. Era ocupação pura, quase mecânica. Existir para passar o tempo, e o tempo a passar por nós sem se deter.

A certa altura, a irmã da Dila voltou a passar por casa do Manel. Um detalhe pequeno, mas suficiente para acordar o incómodo. Serve apenas para lembrar que há alguém que me evita — e eu sem saber porquê. Não é a ausência que dói mais. É a ausência sem explicação. Essa deixa o pensamento a trabalhar horas extraordinárias.

Hoje não houve drama. Houve constatação. O futuro parece claro nos livros e turvo na vida real. Talvez um dia as duas coisas se encontrem. Até lá, vou lendo, esperando e fingindo que não reparo nos silêncios que me escolhem.


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