Apenas este silêncio interior

Domingo, 18 de Abril de 1976

O dia nasceu morno, desses que não prometem nada e cumprem à risca. Não houve presságios, nem vontades súbitas, nem aquela inquietação boa que às vezes empurra o corpo para fora de casa. Tudo parecia suspenso, como se o mundo tivesse decidido falar mais baixo.

Saí com o meu pai. Um passeio sem destino claro, desses que servem mais para ocupar o tempo do que para o viver. E foi então que a vi. A Dila passou por nós, sentada no carro com a família. Um instante apenas. Um cruzar de destinos em movimento contrário. Não sei se me viu. Não sei sequer se quis ver-me. E essa dúvida — simples, seca — diz muito do lugar onde me encontro agora.

Fiquei com essa imagem atravessada no pensamento, como um fotograma mal colado. Ela ali, em andamento. Eu aqui, parado por dentro.

O resto do dia foi fiel a si mesmo: monótono no espírito. Nada me espicaçou o interesse. Nada me puxou para fora deste estado baço. Nem as boas intenções dos meus amigos, que até existiram, mas passaram por mim como chuva fina que não molha.

Hoje não houve quedas nem sobressaltos. Também não houve esperança. Apenas este silêncio interior, pesado e cansado, onde até os pensamentos parecem desistir antes de acabar a frase.

É aqui que estou. Não é bonito, não é dramático. É apenas assim. E às vezes, infelizmente, isto chega para ocupar um dia inteiro.


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