Não tenho respostas

Sábado, 17 de Abril de 1976

O dia começou manso, sem aviso de tempestade. Estava eu na sala, a falar com o meu pai de coisas pequenas — essas conversas que não ficam — quando a vi. A Dila descia a rua em frente de minha casa, a irmã bébé ao colo, gesto seguro, quase maternal demais para a idade. O coração fez aquilo que sempre faz: adiantou-se a mim.

Despachei a conversa como quem fecha uma porta com cuidado e fui para o muro. Fiquei à espera. O muro conhece-me bem, já me viu esperar por quase tudo. Esperei. Muito. O tempo passou devagar, com aquele ar de quem sabe mais do que eu. A Dila não voltou a passar.

Entretanto chegou o Manel, trazendo palavras que não pedi para ouvir. Disse-me, sem rodeios, que ela tinha passado por casa dele para evitar voltar a passar por minha casa. Fiquei ali, parado, como se alguém tivesse mudado o chão de lugar. Não sei bem em que pensei. Talvez em nada. Talvez em tudo. A confusão instalou-se com naturalidade, como quem entra sem bater.

À tarde, para não dar ouvidos aos pensamentos — esses bichos insistentes — aceitei o convite do meu pai para um passeio pelo Porto e Matosinhos. A cidade passou por mim em movimento: ruas, carros, pessoas, o mar ao fundo a fingir eternidade. Ajuda, mas não cura. Aplacou-me os receios? Não sei. Talvez os tenha adiado.

Ao regressar, fui a casa do Manel. Jogamos qualquer coisa, apenas para ocupar as mãos e deixar a cabeça respirar. E então, sem aviso, apareceu a Ana Maria, irmã da Dila, com a bébé ao colo. Um consolo breve, quase simbólico. Um reflexo dela sem ser ela. Durou um instante, como duram as coisas que não se podem segurar.

Ainda saí com o Manel, mas já nada fazia grande sentido. As palavras andavam soltas, os passos sem destino. Voltei para casa com o peso de uma pergunta que não queria calar.

O que terá passado pela cabeça da Dila? Ter-se-á escondido por medo? Por dúvida? Ou apenas porque sim, porque às vezes as pessoas evitam sem saber explicar?

E aquele nosso encontro no seu dia de anos… terá sido apenas uma ilusão minha? Um desses momentos que brilham demais e depois deixam o escuro ainda mais escuro?

Não tenho respostas. Só esta sensação estranha de estar perto e longe ao mesmo tempo. Como quem vê a luz acesa numa casa onde já não se bate à porta.

O futuro… esse ainda não sabe disto. Mas um dia saberá.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »