A calma depois da turbulência emocional
Sexta-feira, 16 de Abril de 1976
Foi um dia brando. Daqueles que só existem em tempo de férias, quando o relógio perde autoridade e a pressa fica sem função. Acordei tarde, sem planos, sem urgências, com o corpo ainda a aprender a nova cadência dos dias livres.
Se pensei na Dila? Claro que sim. Pensei nela como se pensa na respiração: sem esforço, sem decisão, simplesmente porque acontece. Já não vinha em rajadas nem em sobressaltos. Estava instalada. Natural.
Passei parte do dia a ler, deitado, sentado, mudando de posição como quem muda de pensamento. A rádio fazia companhia, música solta, sem grande critério, mas perfeita para aquele estado de espírito. As palavras do livro misturavam-se com as melodias, e tudo avançava devagar, pachorrentamente, como se o tempo tivesse finalmente aprendido a andar ao meu ritmo.
Não houve grandes reflexões nem dramas interiores. Apenas uma tranquilidade estranha, nova, como se o coração tivesse encontrado uma frequência mais estável. Pensava nela sem ansiedade. Sem a urgência de a ver a todo o custo. Havia confiança. Ou talvez apenas aceitação.
Ao fim do dia, ainda assim, não resisti. Fui espreitar. Um desvio quase automático, mais gesto do que decisão. Passei perto de casa da Dila, não à procura de sinais, mas aberto à possibilidade. O destino gosta destas pequenas ousadias.
Não a vi.
E, pela primeira vez, isso não me custou. Bastou-me saber onde ela estava. Saber que existia ali, naquele espaço concreto do mundo, ao alcance do pensamento. Às vezes, isso chega.
Voltei para casa com o dia intacto. Sem vitórias, sem derrotas. Apenas vivido.
Há dias que não empurram a história para a frente, mas consolidam o chão onde ela assenta. Este foi um desses dias.
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