Expectativa

Quinta-feira, 15 de Abril de 1976

O dia nasceu com um peso diferente. Já não era apenas memória a ocupar-me o pensamento; era espera. Uma espera vaga, sem objecto definido, mas insistente. A sensação de que alguma coisa podia acontecer — ou não — e que ambas as hipóteses tinham agora consequências.

Saí de casa mais atento ao mundo. Não à procura declarada da Dila, mas também não a evitá-la. Era como caminhar com os sentidos em alerta, à escuta de um sinal mínimo: um passo, uma silhueta, um acaso favorável. O coração, esse, ia adiantado, sempre meio passo à frente de mim.

Cruzei as ruas conhecidas com um olhar novo. Os lugares pareciam guardar segredos, como se soubessem mais do que eu. Cada esquina trazia uma hipótese. Cada minuto alongava-se, não por tédio, mas por antecipação.

Não a vi. E, estranhamente, isso não me esmagou como noutras vezes. Houve desilusão, sim, mas não desespero. O encontro de dois dias antes tinha deixado uma base. Um chão. Já não estava a imaginar tudo sozinho — algo tinha sido partilhado, mesmo que brevemente.

Passei parte do dia a reconstruir mentalmente o diálogo. Não para o corrigir, mas para o compreender. As pausas dela. O modo como falou. O olhar que sustentou o meu por mais tempo do que seria necessário. Pequenos sinais, talvez. Ou talvez apenas aquilo que eu precisava de ver. A verdade é que, agora, até a dúvida tinha outro sabor.

Ao fim da tarde, senti um cansaço bom. Um cansaço de quem esteve emocionalmente em movimento, mesmo sem sair muito do lugar. A vida interior também desgasta — e também fortalece.

Percebi então que algo em mim se tinha reorganizado. Já não rondava apenas por desejo. Rondava com intenção. Não sabia ainda qual, mas ela existia. E isso mudava tudo.

Quando a noite caiu, não trouxe inquietação excessiva. Trouxe uma pergunta simples, deixada em aberto: quando voltarei a vê-la?

Não havia resposta. Mas, pela primeira vez, a pergunta não doía. Apenas chamava.


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