A ressaca dos dias que mudam tudo
Quarta-feira, 14 de Abril de 1976
Acordei com a sensação estranha de quem não regressou totalmente. O corpo estava na cama, mas alguma coisa em mim continuava na rua, naquele exacto ponto onde as nossas mãos se tocaram. O dia nasceu normal demais para o que eu sentia. E isso incomodou-me.
Levantei-me devagar, como se um movimento brusco pudesse apagar o que ainda vibrava dentro de mim. O eco do dia anterior não era barulhento — era persistente. Estava nos gestos mais simples: ao lavar a cara, ao vestir a camisola, ao abrir a janela. Tudo parecia ligeiramente deslocado, como se o mundo tivesse sido rearrumado sem me avisar.
Pensei nela sem esforço. Não como quem chama uma memória, mas como quem reconhece uma presença. O sorriso. A voz baixa. O silêncio partilhado. E, sobretudo, a sua mão. Aquele toque breve que insistia em reaparecer, não na pele, mas num lugar mais fundo, onde as coisas ganham significado.
Senti vontade de a ver outra vez. Uma vontade diferente das anteriores. Já não era apenas desejo ou curiosidade. Era necessidade de continuidade. Como se aquele encontro tivesse aberto uma frase que agora exigia pontuação.
Passei o dia numa espécie de suspensão. Falava quando era preciso, respondia quando me perguntavam, mas tudo em mim estava voltado para dentro. Havia alegria, sim, mas uma alegria cautelosa, quase desconfiada. Como se eu tivesse medo de acreditar demasiado depressa.
Ao mesmo tempo, crescia um receio novo: e se aquilo tivesse sido apenas um momento isolado? E se, para ela, não tivesse tido o mesmo peso? Pensar nisso apertava-me o peito. Não por orgulho ferido, mas porque agora havia algo a perder.
Percebi então que o dia anterior não tinha sido apenas um bom momento. Tinha sido um ponto de não regresso. Mesmo que nada mais acontecesse, eu já não era o mesmo rapaz que ficara parado em S. Pedro, incapaz de dar um passo.
Esse passo tinha sido dado. E o corpo lembrava-se.
Quando a noite chegou, trouxe menos ansiedade do que na véspera. Havia cansaço, mas também uma calma estranha. Como se, por um instante raro, a vida tivesse deixado de fugir à frente e caminhasse ao meu lado.
Adormeci com uma certeza simples, quase infantil: queria voltar a vê-la. Não para repetir o que aconteceu. Mas para descobrir o que poderia vir a ser.
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