Um novo começo, um novo despertar (?)

Terça-feira, 13 de Abril de 1976

Este não foi um dia qualquer. Começou como tantos outros, banal, sem sinais exteriores de importância. Mas havia qualquer coisa à espreita, paciente, à espera do momento certo para se revelar.

Estava na sala de minha casa, a matar o tempo enquanto esperava que o Manel aparecesse, quando de repente a vi. A Dila. A descer a rua. Assim, sem aviso, como se o mundo tivesse decidido abrir uma fenda só para me testar.

Primeiro paralisei. O corpo ficou imóvel, a cabeça em tumulto. Depois, num impulso que não reconheci como meu — talvez coragem, talvez desespero — saí de casa e coloquei-me em frente, como quem desafia o acaso a repetir-se. E o acaso, pela primeira vez, foi generoso.

Ela voltou a aparecer. Caminhava devagar, pensativa, como se estivesse a conversar consigo mesma. Cruzamos o olhar. E nesse instante o tempo fez aquilo que raramente faz: parou. Não metaforicamente. Parou mesmo.

Não sei o que aconteceu a seguir. Sei apenas que algo me empurrou na direcção dela. Não sei se corri, se voei, se fui levado. Quando dei por mim, estava à frente dela. Demasiado perto para fingir indiferença. Demasiado longe para tocar.

Olhei-a. Ela olhou-me. Havia espanto nos dois lados.

Olá, Dila — disse eu, com uma voz que não reconheci, meio presa, meio solta.

Olá… — respondeu ela, tímida, quase como se pedisse licença às próprias palavras.

Respirei fundo. Ou tentei.

Queria desejar-te um feliz aniversário.

Ela sorriu. Um sorriso simples, atento. Percebeu tudo: o nervosismo, o esforço, a batalha interior.

Obrigada… fico contente que te tenhas lembrado.

Houve um silêncio curto, mas denso. Desses que dizem mais do que frases inteiras.

Estás bem? — perguntou ela, baixinho.

Estou… agora estou.

A verdade saiu-me antes da prudência.

Ela riu-se de leve. Eu também. Um riso nervoso, quase infantil.

Também estava nervosa, sabias? — confessou, desviando o olhar por um segundo. — Quando passei e não te vi, pensei que estarias em casa.

Vi-te quando passaste para baixo, respondi. — Mas hoje… hoje não consegui evitar vir ter contigo.

Ela assentiu devagar, como quem reconhece algo que já sabia.

Tinha de vir falar contigo… — comecei. — Tem sido doloroso…

As palavras ficaram suspensas.

Ela sorriu. E esse sorriso bastou para me desarmar.

Sim… não tem sido fácil… para mim também, retorquiu, em voz sumida.

Ficamos ali mais um pouco, sem pressa, sem mundo à volta. Duas pessoas desajeitadas a tentar existir no mesmo instante.

Quando nos despedimos, nada estava resolvido. Mas tudo estava diferente. Cumprimentei-a e senti a sua mão fria na minha. Os dedos finos, a pele sedosa. Um contacto breve, mas doce o suficiente para me acelerar o coração.

Depois de me afastar dela, caminhei sem rumo definido. As ruas eram as mesmas, as casas as mesmas, mas havia qualquer coisa desalinhada no mundo, como se tudo tivesse dado meio passo ao lado. A mão ainda me ardia. Não de calor — de memória.

Tentei ocupar a cabeça com coisas práticas. Inútil. O corpo estava presente, mas o pensamento regressava, insistente, àquele instante breve em que a sua mão tocou a minha. Fria, delicada, real. Não foi um gesto longo, nem dramático. Foi curto. E talvez por isso mesmo tenha ficado tanto.

Sentei-me. Levantei-me. Voltei a sentar-me. O tempo perdeu a forma habitual. Não avançava, não recuava. Espalhava-se. A imagem dela surgia sem pedir licença: o sorriso contido, a voz baixa, o modo como desviou o olhar ao falar. Tudo pequeno, tudo imenso.

Havia em mim uma alegria contida, quase receosa. Não era euforia. Era algo mais profundo, mais silencioso. Uma sensação nova: a de que, pela primeira vez, não tinha ficado completamente do lado de fora. Tinha entrado um pouco. O suficiente para saber que o mundo dela não me era estranho.

Ao mesmo tempo, vinha o medo. Não o medo antigo de não falar, mas um medo novo, mais sério: o de perder aquilo que acabara de nascer. Porque agora já não era apenas desejo. Era ligação. Frágil, sim. Mas viva.

Quando a noite chegou, não trouxe descanso. Deitei-me com o corpo cansado e a cabeça desperta. Repeti mentalmente cada palavra, cada pausa, cada silêncio. Como se, ao revivê-los, pudesse fixá-los no tempo.

Antes de adormecer, ocorreu-me um pensamento simples e perturbador: nada tinha mudado… e tudo tinha mudado.

O toque daquela mão não me prometeu nada. Mas ensinou-me isto — há encontros que não precisam de futuro para serem verdadeiros. Basta que deixem marca.

E aquela deixou.


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