Geografia do desejo

Segunda-feira, 12 de Abril de 1976

Em férias da Páscoa, o tempo deixou de ser um inimigo apressado. Há horas livres, tardes inteiras sem destino obrigatório, e com isso a vontade de estar próximo da Dila cresceu como cresce tudo o que é deixado ao sol. Não era apenas vontade de a ver; era a necessidade quase física de habitar os mesmos lugares, de respirar o mesmo ar.

A tarde passou-se com a minha pequena alcateia — o Manel e o Benjamim. Andamos juntos, mas cada um carregava os seus próprios pensamentos. Para mim, os nossos passos tinham um sentido claro: rondar os lugares que, sem aviso, se tornaram sagrados. As redondezas de casa dela. Ruas banais para o mundo, território íntimo para mim.

Não a vi. Nenhum encontro, nenhuma aparição súbita, nenhuma recompensa visível. Ainda assim, não foi um dia vazio. Havia uma sensação persistente, difícil de explicar e impossível de negar: ela estava por perto. Talvez atrás de uma janela, talvez numa divisão qualquer da casa, talvez apenas na minha imaginação — pouco importa. A presença sentida foi suficiente.

Esse pressentimento funcionou como um elixir. Não cura, mas anima. Não resolve, mas sustém. Voltei para casa com a alma menos pesada, como quem não encontrou água, mas ouviu correr um rio ali ao lado.

Às vezes, amar é isto: não ver, não tocar, não falar — e mesmo assim sentir-se vivo.


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