Coragem em estado bruto

Domingo, 11 de Abril de 1976

Depois da frustração de ontem, acordei com uma decisão simples e definitiva: hoje tinha de a ver. Não por acaso, não por milagre, não por coincidência — por vontade. Às vezes a coragem não é heróica; é apenas cansar-se de sofrer em silêncio.

Logo de manhã, o Manel acompanhou-me até perto de casa dela. Foi um gesto pequeno, mas fez diferença. E como se o dia tivesse ouvido os meus pensamentos, lá estava ela. A Dila. Atarefada, concentrada, a ajudar na limpeza do carro do pai. Cena banal, quase doméstica, mas para mim foi como assistir a um ritual sagrado.

Mantive-me à distância. Não por falta de desejo, mas por prudência. O pai estava presente, e eu ainda não tinha coragem suficiente para enfrentar dois mundos ao mesmo tempo. Fiquei a observar, discreto, quase invisível. Um gavião paciente, a sobrevoar sem atacar, só para confirmar que a vida ainda estava ali.

Quando ela desapareceu do meu campo de visão, senti o vazio regressar, mas já não era o mesmo vazio de ontem. Voltei para casa com um plano: regressar. Quantas vezes fosse preciso. Voltar a passar, voltar a olhar, insistir na esperança como quem insiste na respiração.

De tarde, vi-a novamente. Desta vez dentro do carro, com a família. Movimento rápido, distante, quase anónimo. Não sei se me viu. Talvez não. Mas isso pouco importou. A simples certeza da sua presença foi suficiente para me encher o coração.

Há dias em que não é preciso falar, nem aproximar-se, nem ser visto. Basta saber que ela existe no mesmo mundo, na mesma tarde, sob o mesmo céu. Hoje foi um desses dias.

Não resolvi nada. Não avancei nada. Mas também não recuei. E, para já, isso chega.


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