A timidez também sabe ferir

Sábado, 10 de Abril de 1976

O dia nasceu limpo, luminoso, desses que parecem prometer tudo e acabam por não cumprir nada. As aulas da manhã passaram sem história, como passam quase sempre: presença física, ausência interior. O verdadeiro dia começou mais tarde, quando cheguei a S. Pedro.

Foi aí que a vi. A Dila. Sempre ela. Como se o mundo tivesse a mania de começar nela e acabar nela. Tinha acabado de chegar num trólei, com aquele ar simples que desarma qualquer defesa. E eu… eu fiquei parado. Cheio de vontade, carregado de palavras por dizer, com um “olá” inteiro preso na garganta. Bastava um passo. Um mísero passo. Não o dei.

A timidez — essa velha inimiga — ergueu-se entre nós como um muro tosco, feito de medo e vergonha. Não havia guardas, não havia arame farpado. Só eu. E isso é o mais cruel. Fiquei a vê-la de longe, como quem observa um cais sem barco. E deixei-a ir.

Voltei para casa zangado comigo. Não com ela. Nunca com ela. Comigo. Porque sei o que sinto e continuo a agir como se não soubesse. Porque tenho tanto para lhe dizer e escolho sempre o silêncio, como se o silêncio fosse uma forma de protecção. Não é. É uma forma lenta de auto-sabotagem.

À tarde, numa tentativa quase religiosa de redenção, fui aos meus antigos locais de peregrinação. Aqueles sítios onde, em outros dias, bastava a esperança para justificar a caminhada. Fui com a intenção humilde de a ver, nem que fosse de passagem, nem que fosse só a sua sombra.

Nada aconteceu.

Não a vi. Não vi sequer o rasto dela. Nenhum sinal, nenhum milagre pequeno. O dia fechou-se assim, seco, como uma carta que nunca chegou ao destinatário.

E eu fiquei com isto dentro: a certeza de que o amor também se perde por inércia. Não por falta de sentimento, mas por excesso de medo.

O futuro? Há-de rir-se disto tudo. Mas hoje… hoje ainda dói.


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