Um bilhete e o resto do mundo
Sexta-feira, 9 de Abril de 1976
Acordei decidido. Não com aquela decisão firme que resolve tudo, mas com a que não aceita mais adiamentos. Sentei-me e escrevi-lhe um bilhete. Simples, direito, sem truques. As palavras saíram-me devagar, como se cada uma precisasse de autorização para existir.
Desejei-lhe um feliz aniversário. Disse-lhe isso primeiro, como deve ser. Depois contei-lhe o que me pesava: o silêncio dela. O facto de já não falarmos. A estranheza de passar por alguém que foi casa e agora é apenas rua.
Dobrei o papel com cuidado excessivo, como se pudesse magoar as palavras. Entreguei o bilhete ao Manel para lho dar. A partir daí, fiquei suspenso. À espera. Ansioso. Vulnerável. O coração passou a bater alto demais para o tamanho do dia.
Depois das aulas, para abafar os pensamentos e calar esse ruído interior, fui para a Biblioteca Municipal do Porto. Precisava de leitura. Qualquer leitura. Um refúgio provisório, um anestésico honesto.
Andei entre estantes como quem procura abrigo da chuva. Peguei em livros ao acaso, folheei páginas sem saber bem o que lia. As palavras estavam lá, mas a cabeça insistia em regressar ao mesmo ponto: o bilhete agora fora das minhas mãos.
A biblioteca cumpriu o seu papel. Não me salvou, mas deu-me pausa. Às vezes é o máximo que se pode pedir.
Hoje entreguei mais do que um papel. Entreguei-me. O resto já não depende de mim.
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