À distância do que não ouso

Quinta-feira, 8 de Abril de 1976

O dia encheu-se de coisa nenhuma. Rotinas sem alvo, horas a cumprir-se umas às outras, como se o tempo estivesse apenas a passar por obrigação. As aulas sucederam-se sem deixar rasto. Eu também passei por elas sem deixar muito de mim.

Depois do regresso a casa, o Manel pediu-me que o acompanhasse até casa da Dila. Precisava de falar com o pai dela. Aceitei de imediato, com um entusiasmo mal disfarçado, desses que o corpo denuncia antes da razão chegar a tempo.

Chegados lá, mantive-me à distância. Não queria ser visto. Não queria perturbar aquele equilíbrio frágil que construí à força de silêncio. A vontade de estar com ela era grande, quase física, mas desde o dia em que ela me virou as costas algo se fechou em mim. Uma grilheta de gelo. Não sei quando a pus, mas sei que ainda não tive coragem de a quebrar.

Esperei. Muito. O tempo esticou-se como se soubesse que eu precisava dele. Não falei, não me movi, não existi em voz alta. Limitei-me a estar ali, a respirar o mesmo ar que ela, a imaginar passos, gestos, palavras que nunca aconteceram. Não foi pouco. Às vezes isso basta.

Quando regressamos, disse ao Manel que ia escrever-lhe um bilhete. Aproxima-se o aniversário dela. Um pretexto simples, quase inocente, mas legítimo. Talvez as palavras consigam ir onde eu não chego. Talvez não. Ainda assim, é preciso tentar.

O dia não trouxe acontecimentos dignos de nota. Trouxe espera. E trouxe decisão.

Hoje não avancei no mundo. Mas avancei dentro de mim — ainda que em silêncio.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »