O regresso dos sonhos

Quarta-feira, 7 de Abril de 1976

Acordei com a sensação de que era preciso aliviar o peso. As ideias do livro ainda estavam lá, mas já não mandavam em mim. Talvez seja cedo demais para lhes dar abrigo definitivo. Tenho dezasseis anos. Não me apetece carregar verdades inteiras quando ainda estou a aprender a viver perguntas simples. Guardei o que pude, deixei o resto em espera. A mente agradeceu.

O dia avançou com mais leveza. As aulas passaram sem conflito interior, quase em modo automático. Dei-me o direito de voltar a ser apenas um adolescente distraído, entregue a pensamentos soltos, a pequenos devaneios sem culpa nem explicação. Nem tudo tem de fazer sentido. Nem tudo precisa de profundidade.

E depois vi-a.

A Dila apareceu como aparece sempre: sem aviso e com efeito imediato. Foi um instante suficiente para desfazer o equilíbrio cuidadosamente montado. Tudo fez reset. As emoções guardadas abriram as gavetas, os pensamentos antigos regressaram ao seu lugar habitual, e o coração, sempre disponível, voltou ao trabalho.

Não falámos. Talvez nem fosse preciso. Bastou vê-la ali, real, próxima, para que os sonhos regressassem como se nunca tivessem ido embora. São sonhos simples, quase ingénuos, mas teimosos. Não pedem lógica, apenas espaço.

Percebi então que posso ler livros difíceis e pensar o mundo, mas continuo a ser feito destas coisas pequenas e essenciais. Um olhar, uma presença, uma esperança sem argumento. E está tudo bem assim.

Ao fim do dia, senti-me inteiro outra vez. Não mais sábio, não mais esclarecido, mas inteiro. Às vezes a vida não pede entendimento. Pede continuidade.

Hoje avancei. Não sei bem para onde. Mas avancei com os sonhos intactos — e isso chega.


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