Aprender a carregar perguntas

Terça-feira, 6 de Abril de 1976

O dia começou cedo e sem delicadezas. A terça-feira não tem paciência para estados de alma. Exige presença, obriga a avançar, empurra-nos para fora da cama com a frieza de quem diz: continua.

As aulas sucederam-se com a cadência habitual. Matérias, exercícios, explicações. Tudo parecia sólido, estruturado, quase reconfortante. Enquanto isso, dentro de mim, crescia um território mais instável. As palavras de Reich voltavam, não em frases completas, mas em fragmentos soltos, como se estivessem a testar a minha resistência.

Começo a perceber que há perguntas que não pedem resposta imediata. Pedem espaço. Pedem tempo. E, sobretudo, pedem coragem para serem transportadas sem garantia de destino. Ser responsável por mim próprio — a ideia soa nobre no papel, mas pesa nos ombros de um rapaz que ainda aprende a reconhecer o próprio corpo e os próprios limites.

Durante a tarde, dei por mim a observar os outros com mais atenção. Parecem seguros, ocupados, convencidos de que sabem quem são e para onde vão. Talvez seja ilusão. Talvez todos carreguemos estas dúvidas em silêncio, fingindo que não existem.

A Dila passou-me pela cabeça, como passa agora quase sempre: sem alarme, sem sobressalto. Uma presença discreta, integrada no fundo das coisas. Já não desorganiza o dia, mas também não sai de cena.

Regressei a casa com a sensação de ter passado o dia inteiro a sustentar pensamentos. Não cansa o corpo, mas esgota de outra forma. Li mais um pouco. Escrevo para não deixar que as perguntas se acumulem sem voz.

Hoje não aprendi nada que possa explicar. Mas aprendi a carregar. E isso, talvez, seja um princípio.


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