O mundo depois das palavras

Segunda-feira, 5 de Abril de 1976

A segunda-feira chegou com a normalidade expectável, mas algo tinha ficado desalinhado dentro de mim. O dia parecia o mesmo, porém eu já não era exactamente igual ao de ontem. As palavras do livro de Reich ainda ecoavam, não como pensamento organizado, mas como uma vibração surda, difícil de ignorar.

Levantei-me, preparei-me, saí. Os gestos repetiram-se com precisão quase automática. A vida prática tem essa capacidade curiosa de avançar mesmo quando o interior está em revisão. Fui para as aulas com o corpo presente e a cabeça meio atrasada, como quem entra numa sala depois da conversa já ter começado.

Durante a tarde, ouvi professores falar de matérias bem definidas, com respostas certas e erradas. Invejei-lhes, por momentos, essa clareza. Dentro de mim, tudo parecia mais difuso. A ideia de liberdade, lançada por Reich, não se encaixava facilmente na minha idade nem na minha vida. Soava grande demais, exigente demais. Ser livre implicava ser responsável por mim — e isso assustava sem eu o admitir.

Não pensei nela, na Dila, com a habitual insistência. Talvez porque, naquele dia, a inquietação tinha outro nome. Ou talvez porque o livro me tinha deslocado o eixo, empurrando-me para um território onde as perguntas não tinham rosto, apenas peso.

Voltei para casa ao fim da tarde. Lanchei, como sempre. O mundo precisava dessa âncora simples para não se desagregar. Depois fiquei algum tempo em silêncio, a folhear o livro sem ler verdadeiramente, como se estivesse a ganhar coragem para continuar.

Escrevo agora com a sensação estranha de estar a crescer por dentro sem saber em quê. Não houve acontecimentos dignos de nota. Houve apenas um ligeiro desvio na forma de olhar as coisas. E às vezes é assim que tudo começa.

O mundo seguiu igual. Eu dei um passo curto, quase invisível. Mas foi em frente.


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