Um livro mais pesado do que eu
Domingo, 4 de Abril de 1976
O domingo acordou morno, sem vontade de se impor. Não houve planos, nem encontros, nem desvios. Apenas eu e um livro. Às vezes é suficiente.
Comecei a ler Escuta Zé Ninguém, de Wilhelm Reich. Não sabia bem ao que ia, e talvez por isso tenha ido mais longe do que esperava. As páginas não se ofereceram com gentileza; exigiam atenção, quase confronto. Lia devagar, como quem atravessa terreno desconhecido sem mapa.
Houve uma passagem que me ficou atravessada, não como uma ideia clara, mas como um peso difícil de localizar:
“Dizes-te ‘livre’, mas tens medo do teu próprio corpo e da tua própria vida. Tens medo da liberdade, Zé Ninguém, porque ela te obriga a seres tu próprio e a seres responsável por ti.”
Não sei se a compreendi totalmente. Talvez não. Tenho dezasseis anos e ainda estou a aprender a distinguir pensamento de vertigem. Mas senti-a. Isso sim. A frase caiu-me dentro como uma verdade dita cedo demais, dessas que não se discutem, apenas se carregam.
Passei o resto do dia enleado nessa leitura, ora convencido de que estava a entender, ora desconfiado de que me escapava o essencial. Talvez seja assim que começam as perguntas sérias: sem respostas prontas, sem chão firme.
Procuro entender um mundo que mudou depressa demais. Procuro entender-me a mim, que mudo mais devagar. O livro não me deu consolo, mas deu-me inquietação — e isso também é uma forma de aprendizagem.
Ao cair da noite, fechei o livro sem o fechar por dentro. Ficou ali, aberto em mim, a fazer ruído. Um domingo sem história, dizem. Mas houve história. Só que aconteceu por dentro.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »