O ruído manso das horas

Sábado, 3 de Abril de 1976 

O sábado chegou sem entusiasmo e sem protestos. Um dia livre que não se anuncia como liberdade, mas como suspensão. Não há aulas, não há pressas, e talvez por isso o tempo se torne mais audível. Cada hora faz-se ouvir, lenta, quase provocadora.

A manhã passou-se em aulas com histórias e contos, desses que não merecem registo mas constroem os dias. Quando saí do liceu andei pelas ruas como quem procura qualquer coisa sem saber o quê. Às vezes é só isso: o corpo em movimento enquanto a cabeça vagueia.

De tarde, o mundo pareceu encolher. As ruas tinham menos gente, os sons eram mais espaçados, como se tudo estivesse em modo de economia. Senti uma vontade vaga de sair, de ir a algum lado — não por destino, mas por impulso. Acabei por não ir. Ficar também é uma escolha, ainda que pareça passiva.

Pensei nela, claro. Não como urgência, mas como fundo permanente. Há pensamentos que deixam de ser invasores e passam a fazer parte da mobília interior. Estão lá. Não atrapalham, mas também não desaparecem.

O fim da tarde trouxe aquele cansaço estranho que não vem de esforço nenhum. Apenas do tempo vivido em branco. Talvez seja isso que mais desgasta: dias que não ferem, mas também não marcam.

À noite, o sábado perdeu o pouco brilho que tinha. Não houve nada a contar, mas houve muito a sentir — embora sem nome. Escrevo para não deixar o dia escorrer por completo, sabendo que até os dias silenciosos fazem parte da história.

O ruído deste sábado foi baixo, quase imperceptível. Mas existiu. E eu também.


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