Apenas Vê-la

Quinta-feira, 25 de Março de 1976 

A manhã passou sem deixar rasto. Um desses blocos de horas neutras, sem memória futura. Levantei-me, cumpri, avancei. Nada a assinalar. Como se o dia estivesse a guardar tudo para mais tarde.

E guardava.

À tarde, logo ao primeiro tempo, um furo. A ausência do professor abriu um intervalo inesperado — e, com ele, uma possibilidade. Nem pensei. Saí quase a correr, esbaforido, em direcção ao Liceu Rainha Santa Isabel. Não era pressa física, era urgência interior. Sabia que, àquela hora, ela deveria sair para ir à cantina. Quando a esperança decide levantar-se, o corpo segue-a sem discutir.

E lá estava ela.

Linda como tudo. Não encontro outra medida. Há pessoas que não precisam de cenário nem de contexto — bastam. Os meus olhos perderam-se nela com a naturalidade de quem já não resiste. Foi ela quem armadilhou o meu coração, sem intenção talvez, mas com eficácia absoluta. Sempre que a vejo, fico em risco de explodir por dentro. Não é metáfora. É um estado.

Observei-a sem coragem de me aproximar. Não por medo, mas por lucidez. Sei o lugar que ocupo: o de quem vê. O de quem deseja em silêncio. O de quem aceita que não pode ter, mas não abdica de sentir. Hoje isso foi suficiente.

Não importava o que pudesse acontecer a seguir. Não importava o resto do dia, nem o mundo, nem as suas exigências pequenas. Eu só a queria ver. Porque vê-la ainda me sustenta. Porque, mesmo sem posse, há uma espécie de pertença íntima no acto de olhar.

Ela seguiu o seu caminho. Eu fiquei no meu. Mas durante aqueles minutos, tudo fez sentido. Às vezes, a felicidade não é mais do que isto: a confirmação visual daquilo que nos desorganiza por completo.

Voltei para trás com o coração inquieto e cheio. Não satisfeito — cheio. E isso, por agora, chega.


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