À Espera de um Sinal
Quarta-feira, 24 de Março de 1976
Acordei com o corpo pesado e a alma ainda mais lenta. O cansaço de ontem não passou com o sono; apenas mudou de forma. Já não dói — instala-se. Fica. Aprende a viver connosco.
A manhã decorreu em silêncio interior. Fiz o que havia a fazer, sem resistência, mas também sem entusiasmo. Há dias em que não lutamos contra nada. Limitamo-nos a aceitar o ritmo imposto, como quem caminha com uma pedra no bolso para não voar.
À tarde, as aulas repetiram-se como um disco gasto. As vozes dos professores chegavam-me filtradas, como se viessem de outra sala. Eu estava presente, mas distante. Pensava no futuro — não como promessa, mas como incógnita. Sinto que algo me chama, mas não sei ainda em que língua.
A Dila atravessou-me o pensamento de forma breve, quase tímida. Não como ferida aberta, mas como lembrança persistente de tudo o que não sei resolver. Às vezes penso que ela simboliza mais do que ela própria. Talvez represente aquilo que quero e não alcanço, aquilo que sinto e não domino.
O dia avançou sem sobressaltos. Nenhum sinal. Nenhuma epifania. Apenas a sucessão ordeira das horas, como se o tempo me estivesse a testar a paciência.
À noite, escrevo com uma espécie de esperança cansada. Não a esperança vibrante dos começos, mas a esperança teimosa dos que continuam apesar de não verem luz nenhuma ao fundo. Talvez o sinal não venha de fora. Talvez esteja a formar-se lentamente dentro de mim, sem pressa, à minha revelia.
Fecho o dia assim: à espera. Não de um milagre, mas de clareza. E enquanto ela não chega, permaneço. Ainda aqui. Ainda atento. Ainda vivo.
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