Cansaço Sem Norte
Terça-feira, 23 de Março de 1976
A manhã nasceu calma, quase indulgente. Levantei-me sem pressa, como se o tempo tivesse decidido dar-me tréguas. Não fiz nada de especial. E, ainda assim, senti um peso que não vinha do corpo. Há cansaços que acordam antes de nós.
À tarde, as aulas cumpriram o ritual habitual. Entrei, sentei-me, ouvi, escrevi. Tudo dentro da rotina, tudo previsível. A normalidade tem esta capacidade estranha de nos proteger e, ao mesmo tempo, de nos asfixiar. Enquanto copiava apontamentos, pensava noutras coisas. Pensava que estou a andar, mas talvez em círculos.
Ao fim da tarde, o treino. As artes marciais exigem tudo o que temos, mesmo quando já não sobra muito. O corpo respondeu, como sempre responde. Há nele uma disciplina que a cabeça ainda não aprendeu. Cada movimento saiu certo, mas sem entusiasmo. Treinei por obrigação interior, não por impulso. Mesmo assim, foi ali que menos pensei.
Quando a noite chegou, veio com ela um cansaço duplo. Físico, sim — músculos gastos, respiração pesada. Mas sobretudo emocional. Sinto-me derrotado. Não por alguém ou por alguma coisa concreta, mas por mim próprio. Quero avançar, sei que há um destino qualquer à minha frente, algo que almejo sem conseguir definir. O problema é este: não vejo o caminho. Não sei como lá chegar.
Isso inquieta-me mais do que devia. Ter um desejo sem mapa. Uma vontade sem método. Parece que estou pronto para partir, mas ninguém me diz de onde sai o comboio.
Escrevo estas linhas com franqueza. Não me apetece disfarçar. Hoje não houve revelações, nem esperança clara, nem consolo fácil. Houve apenas esta sensação de estar parado, mesmo fazendo tudo o que se espera de mim.
Fecho o dia assim, cansado e lúcido. Talvez amanhã traga uma pista, um sinal, ou apenas mais força para continuar. Por agora, basta-me reconhecer este estado de alma. Às vezes, falar do cansaço é o primeiro passo para não ficar nele.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »