Entre Duas Memórias

Segunda-feira, 22 de Março de 1976

Hoje não houve história. O dia passou como passam tantos outros: sem arestas, sem sobressaltos, sem acontecimentos que mereçam ser contados. E, no entanto, foi pesado. Não pelo que aconteceu, mas pelo que se lembrou.

As memórias vieram em dois tons. As felizes, luminosas, quase traiçoeiras na forma como aquecem o peito. E as dolorosas, silenciosas, insistentes, sempre prontas a lembrar que aquilo que foi inteiro agora chega aos bocados. Ambas verdadeiras. Ambas minhas.

Passei o dia a oscilar entre uma e outra, como quem não sabe qual escolher para se amparar. Se me agarro às felizes, corro o risco de me perder nelas, de querer voltar a um tempo que já não existe. Se me agarro às dolorosas, endureço, fecho-me, finjo que já não sinto. Nenhuma das opções é cómoda. Talvez nenhuma seja definitiva.

Pensei na Dila, claro. Não como presença recente, mas como fio condutor destas memórias cruzadas. Foi ela quem deu cor às felizes e peso às dolorosas. Não por culpa, mas por importância. Só o que importa deixa marca.

O dia cumpriu-se com a sua normalidade indiferente. A rotina fez o seu papel, quase como um favor: manteve-me ocupado o suficiente para não me afundar em excesso. Ainda assim, por dentro, o diálogo continuou.

A qual me devo agarrar? Pergunto-me. E não respondo. Talvez porque não seja uma escolha. Talvez porque crescer seja aprender a caminhar com ambas, sem deixar que nenhuma nos derrube.

Escrevo isto sem conclusões. Há dias assim, suspensos. Não se resolvem, atravessam-se. E hoje limitei-me a isso: a atravessar o dia, levando comigo as duas memórias, como quem carrega um equilíbrio instável, mas necessário.


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