Migalhas de Luz

Domingo, 21 de Março de 1976

Acordei ainda envolto no dia de ontem. O corpo estava aqui, mas o pensamento continuava naquele trólei, naquela janela, naquele vento. Há encontros que não terminam quando acabam — prolongam-se como um eco persistente, discreto, mas impossível de ignorar.

As sensações permaneceram. Não como agitação, mas como um calor manso, instalado algures entre o peito e a memória. Agarrado a migalhas, é verdade. Migalhas de um instante que, para qualquer outro, teria passado despercebido. Para mim, não. Recolhi-as uma a uma, com cuidado, e guardei-as bem junto do coração, como quem sabe que não haverá pão inteiro tão cedo.

Passei o dia numa espécie de suspensão. Tudo aconteceu devagar, sem relevo. O mundo parecia cumprir apenas as suas obrigações mínimas. Eu, por dentro, vivia outra coisa. Revi o perfil dela vezes sem conta. A luz na face, a postura serena, a maturidade discreta que se anuncia sem pedir licença. Não era apenas saudade — era reconhecimento. Ela está a mudar. E eu também. Só não sei se na mesma direcção.

Perguntei-me, em silêncio, se aquele encontro foi casual ou se o acaso já começa a ter hábitos. Não encontrei resposta. Talvez não seja preciso. Há perguntas que servem apenas para nos manter atentos.

Senti falta. Não daquela falta ruidosa que dói, mas de uma ausência delicada, quase educada. Como se ela tivesse passado por mim e levado consigo qualquer coisa que não sei o quê, mas cuja falta se faz sentir.

Hoje percebi que estes pequenos momentos sustentam dias inteiros. São frágeis, mas resistentes. Não prometem futuro, mas alimentam o presente. E, para já, isso basta.

Ao escrever estas linhas, não peço mais do que isto: que a memória não me falhe. Que estas migalhas não se percam. Porque, enquanto as tiver comigo, sei que não estou vazio. Apenas à espera.


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