Momentos fugazes e eternos

Sábado, 20 de Março de 1976

Saí de casa ainda cedo, o dia mal começado, o trólei à espera como um destino provisório. Fui com um propósito silencioso: ver se ela aparecia. Não é fé, é hábito do coração. E apareceu. Como se o acaso também tivesse memória.

Entramos no trólei quase ao mesmo tempo. O meu coração denunciou-me de imediato, acelerado, indisciplinado. Ela passou por mim sem dizer uma palavra, os olhos presos ao chão, como se ali houvesse algo de muito importante a não perder. Fingi distração. Não queria dar nas vistas, como se o amor tivesse vergonha de existir em público.

Observei-a à distância certa — a distância de quem olha, mas não invade. Estava mais magra. O corpo começava a desenhar-se com outra consciência, outra geometria. Havia nela uma feminilidade nova, ainda em formação, mas já segura de si. Mais bonita, sim. E com um ar mais maturo que me desarmou.

Ela sentou-se mais à frente. Eu fiquei ligeiramente atrás, num lugar estrategicamente inocente. A janela recortava-lhe o perfil com uma luz quase cúmplice. As faces ligeiramente rosadas, os lábios vermelhos, vivos — não por artifício, mas por natureza. Os meus olhos iam e vinham, como se estivessem a memorizar cada linha para o futuro. O coração batia fora de tempo, como sempre faz quando ela está por perto.

O caminho pareceu eterno. E depois, abruptamente, acabou. A paragem chegou. Ela levantou-se, saiu sem pressa. Eu logo atrás. Nesse instante, o vento chicoteou-me com os seus cabelos. Um toque mínimo, impessoal, involuntário — e absolutamente devastador. Não lhe toquei, mas fui tocado. E isso bastou.

Fiquei para trás. Não por escolha, mas por suspensão. Vi-a afastar-se até a perder de vista, enquanto aquela sensação permanecia colada a mim, como se o vento tivesse deixado uma marca invisível.

O resto do dia não teve história. Nem merecia. Passei-o em “replay”, a rever cada segundo, cada gesto, cada detalhe luminoso daquele trajecto breve e intenso. Há momentos assim: não se vivem duas vezes, mas vivem-se muitas vezes depois.

Hoje, bastou-me isso. Um olhar que não houve. Um toque que não foi. E um vento que ficou.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »