Encontros passageiros… cruéis
Sexta-feira, 19 de Março de 1976
Hoje o dia reduziu-se a quase nada — e tudo o mais foi preenchido em pleno. O que aconteceu sem relevância perdeu importância automaticamente, como se a realidade tivesse decidido sublinhar apenas o essencial e riscar o resto a lápis.
Vi a Dila à entrada e à saída do trólei em direção ao Bonfim. Encontros fugazes que não foram encontros, mas sim passagens fugidias, efémeras. Daquelas que duram segundos, mas deixam rasto. Um cruzar de olhares, sem um gesto breve, nem uma palavra solta no ar — pouco importa o detalhe exacto. O que conta é o efeito: bastou isso para o dia ganhar densidade.
Estes encontros passageiros foram cruéis na sua simplicidade. Não ofereceram continuidade, não permitiram explicações, não resolveram nada. Limitaram-se a acontecer. E, no entanto, bastaram para acordar tudo o que eu julgava arrumado. É como abrir uma janela por um instante e voltar a fechá-la antes que o ar novo faça efeito. Ficou só a consciência de que existe outro clima lá fora para além da turbulência das emoções cá dentro.
Senti aquele velho aperto conhecido, mistura de alegria e frustração. Alegria por a ver — sempre. Frustração por não ser mais do que isso. Ela passa, eu fico. E fico a pensar no que não foi dito, no que poderia ter sido, no que talvez ainda seja, algures num futuro que insiste em não se definir.
O resto do dia aconteceu à margem. As aulas, os colegas, os ruídos habituais — tudo isso decorreu como um fundo desfocado. Mas era tudo mecânico. O centro estava noutro lugar.
Há qualquer coisa de profundamente injusto nestes encontros rápidos: não dão tempo ao coração para se defender. Entram directos, sem aviso, e saem deixando a porta aberta. E depois cabe-me a mim fechar, com cuidado, para não fazer barulho.
À noite, escrevo para tentar compreender-me. Digo-me que não posso viver de instantes. Respondo-me que também não sei viver sem eles. É neste diálogo interior, meio honesto, meio teimoso, que vou passando os dias.
Hoje foi isso: um dia pequeno, salvo por um momento grande. E às vezes é assim que a vida se organiza — não por horas, mas por segundos que ficam.
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