O Dia Depois
Quinta-feira, 18 de Março de 1976
O dia acordou como se nada tivesse acontecido. E talvez seja isso mesmo o que mais custa: o mundo não se comove com aniversários adiados por dentro. Ontem fiz dezasseis anos; hoje sou apenas o mesmo rapaz, um dia mais velho, um dia mais lúcido — ou talvez não.
A manhã trouxe um cansaço estranho, não físico, mas daquele que se instala quando as perguntas não dormem. Tudo decorreu com normalidade. Os gestos repetiram-se, as palavras também. Há dias assim, em que a vida cumpre expediente. Não reclama, não oferece. Limita-se a estar.
À tarde, as aulas arrastaram-se com a dignidade possível. Sentei-me, ouvi, copiei, respondi quando era preciso. Mas por dentro havia uma espécie de ressaca emocional, como se o dia anterior tivesse aberto uma porta que hoje ficou entreaberta. Quando isso acontece, o pensamento entra e sai sem pedir licença.
Voltei a pensar na Dila. Não como dor aguda, mas como presença silenciosa. Há memórias que não se impõem — apenas permanecem. Lembrei-me de pequenos detalhes inúteis para o mundo, mas essenciais para mim: um riso rápido, uma espera que parecia eterna, a forma como o tempo ganhava outra textura quando ela estava por perto. O passado não regressa, mas sabe visitar.
Ao fim do dia, o corpo pediu movimento. No treino, descarreguei a inquietação em cada gesto. Há qualquer coisa de justo na disciplina: ela não consola, mas organiza. Enquanto treino, sinto que pelo menos uma parte de mim sabe exactamente o que está a fazer.
À noite, ao regressar, percebi que este dia foi o verdadeiro aniversário. Não o da idade, mas o da consciência. O dia depois é sempre mais sincero. É nele que percebemos o que ficou por dizer, o que não aconteceu, o que já não volta.
Escrevo isto com calma, sem dramatizar. Digo a mim mesmo que sentir saudade não é ficar preso. É reconhecer que houve algo que valeu a pena. E isso, por mais que doa, também é uma forma de riqueza.
Fecho o dia com uma certeza modesta: continuo a caminhar. Devagar, talvez. Com desvios, certamente. Mas sigo. E enquanto sigo, levo comigo o que fui — não como peso, mas como raiz.
O dia acordou como se nada tivesse acontecido. E talvez seja isso mesmo o que mais custa: o mundo não se comove com aniversários adiados por dentro. Ontem fiz dezasseis anos; hoje sou apenas o mesmo rapaz, um dia mais velho, um dia mais lúcido — ou talvez não.
A manhã trouxe um cansaço estranho, não físico, mas daquele que se instala quando as perguntas não dormem. Tudo decorreu com normalidade. Os gestos repetiram-se, as palavras também. Há dias assim, em que a vida cumpre expediente. Não reclama, não oferece. Limita-se a estar.
À tarde, as aulas arrastaram-se com a dignidade possível. Sentei-me, ouvi, copiei, respondi quando era preciso. Mas por dentro havia uma espécie de ressaca emocional, como se o dia anterior tivesse aberto uma porta que hoje ficou entreaberta. Quando isso acontece, o pensamento entra e sai sem pedir licença.
Voltei a pensar na Dila. Não como dor aguda, mas como presença silenciosa. Há memórias que não se impõem — apenas permanecem. Lembrei-me de pequenos detalhes inúteis para o mundo, mas essenciais para mim: um riso rápido, uma espera que parecia eterna, a forma como o tempo ganhava outra textura quando ela estava por perto. O passado não regressa, mas sabe visitar.
Ao fim do dia, o corpo pediu movimento. No treino, descarreguei a inquietação em cada gesto. Há qualquer coisa de justo na disciplina: ela não consola, mas organiza. Enquanto treino, sinto que pelo menos uma parte de mim sabe exactamente o que está a fazer.
À noite, ao regressar, percebi que este dia foi o verdadeiro aniversário. Não o da idade, mas o da consciência. O dia depois é sempre mais sincero. É nele que percebemos o que ficou por dizer, o que não aconteceu, o que já não volta.
Escrevo isto com calma, sem dramatizar. Digo a mim mesmo que sentir saudade não é ficar preso. É reconhecer que houve algo que valeu a pena. E isso, por mais que doa, também é uma forma de riqueza.
Fecho o dia com uma certeza modesta: continuo a caminhar. Devagar, talvez. Com desvios, certamente. Mas sigo. E enquanto sigo, levo comigo o que fui — não como peso, mas como raiz.