Dezasseis Anos e um Silêncio
Quarta-feira, 17 de Março de 1976
Hoje fiz dezasseis anos. Digo-o sem ponto de exclamação. O dia não trouxe trombetas nem revelações, e talvez por isso mesmo tenha sido honesto. Um dia comum, quase banal, desses que passam sem pedir licença e que só mais tarde percebemos que também contam.
A manhã acordou solarenga, sem pressa nenhuma. O sol entrou como quem conhece a casa e não precisa bater à porta. Não fiz nada de especial — e isso soube-me bem. Há dias em que a tranquilidade é um luxo discreto, quase invisível.
À tarde, as aulas seguiram o trilho gasto de sempre. As mesmas salas, os mesmos rostos, o mesmo tique-taque invisível do tempo escolar. Estive lá de corpo inteiro, mas com o pensamento a vaguear. Há uma parte de mim que já não cabe inteiramente na rotina. Crescer é isso: estar presente e ausente ao mesmo tempo.
E depois, à noite, o treino. O corpo em movimento, a disciplina, o suor. As artes marciais não perguntam o que sentimos — exigem. E talvez por isso me façam bem. Enquanto executo cada gesto, o mundo cala-se. Ali, não há passado nem futuro. Só o agora. Só o impacto controlado, a respiração certa, o respeito pelo outro e por mim.
Mas houve um vazio ao longo do dia. Uma ausência sem nome, mas com rosto. Falta-me qualquer coisa — ou alguém. A Dila. Não precisei de a invocar; ela apareceu sozinha, como sempre. Não em imagem nítida, mas em eco. Um gesto antigo, um olhar que já foi só meu, um tempo em que este dia teria outro peso. Talvez um sorriso, talvez uma palavra simples que nunca foi dita.
Hoje fiz dezasseis anos e não senti mudança nenhuma. E isso inquieta-me. Esperava sentir-me diferente. Mais alto por dentro. Mais distante de ontem. Mas continuo aqui, com as mesmas perguntas e a mesma saudade mal resolvida.
À noite, ao escrever estas linhas, falo comigo como quem escreve uma carta que nunca será enviada. Digo-me que o tempo não deve nada a ninguém. Que crescer não é um estalido, é erosão lenta. Digo-me também que é permitido sentir falta. Não é fraqueza, é memória viva.
Fecho o dia assim: sem festa, sem velas, sem promessas. Apenas com a certeza de que sigo em frente — mesmo quando uma parte de mim insiste em olhar para trás. Dezasseis anos. E ainda a aprender a lidar com o silêncio.
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