Novos Céus para Olhar
Terça-feira, 16 de Março de 1976
Hoje dei um passo lateral — desses que não parecem grandes, mas mudam o mapa inteiro. Inscrevi-me num grupo de ovnilogia. Dito assim soa quase extravagante, mas não é fuga: é procura. Levantei os olhos do chão e comecei a olhar para o céu com método, papel e perguntas. Há qualquer coisa de honesto em admitir que não sabemos tudo. Talvez nada. E isso, longe de me diminuir, alarga-me.
Sinto que começa aqui um novo período. Novos interesses, novas órbitas. Não renegam o passado; apenas o deslocam. O que ficou lá atrás continua presente, mas já não pesa do mesmo modo. É como uma fotografia antiga: as cores gastas não apagam o rosto. Dilui-se o tempo, não o sentido.
As emoções estão resguardadas num baú — não trancado, apenas pousado num canto seguro. Sei onde está a chave. Posso abri-lo quando quiser. Dentro, as páginas escritas de uma história comum com a Dila respiram ainda. Não pedem revisão, pedem respeito. O que foi, foi. E foi verdadeiro.
Ao fim do dia, li. Li com saudade, sem dramatismos. Uma leitura calma, quase cúmplice, como quem visita um lugar onde foi feliz e aceita que já não mora lá. A esperança, essa, não é nostalgia: é projecto. Está à frente, discreta, mas firme. Talvez venha do céu, talvez de dentro. Pouco importa. O importante é continuar a olhar.
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