Uma centelha de esperança
Segunda-feira, 15 de Março de 1976
Hoje o pensamento vagueia entre páginas e culturas. A leitura de Wilhelm Reich continua a bater forte na minha mente, abrindo janelas para mundos onde a liberdade sexual e a espontaneidade não conhecem correntes. A vida dos Trobriandeses fascina-me: a forma como vivem sem o peso das proibições, a leveza com que circulam os afectos e os desejos. Sinto um misto de inveja e inspiração, como se cada frase me mostrasse a minha própria prisão invisível, feita de regras e receios.
Passei a manhã imerso nestas ideias, o caderno aberto ao lado, a caneta à mão, tentando traduzir em palavras este turbilhão de descobertas. A tarde trouxe o quotidiano do liceu, mas até nos corredores e nas salas de aula a liberdade dos Trobriandeses parecia seguir-me, provocando um sorriso discreto quando os olhares de colegas e professores se cruzavam comigo. Pergunto-me se alguém mais sente esta urgência de quebrar invisíveis barreiras, ou se sou apenas eu a perceber a vastidão do que é possível sentir e ser.
A sala de História parecia pequena, quase sufocante, diante das ideias que tinha lido. Enquanto a professora falava, o meu pensamento escapava-se para as praias e florestas das Ilhas Trobriand, onde o tempo e os sentimentos correm livres, sem barreiras nem olhares censores. Era uma sensação estranha: o meu corpo sentado na carteira, mas a mente a flutuar num mundo completamente outro.
No intervalo, encontrei o Benjamim e seguimos juntos para o recreio. Conversamos pouco, cada um imerso nos próprios pensamentos, mas senti um laço silencioso, quase de cumplicidade, como se ele também pressentisse algo diferente naquele meu silêncio. Procurei a Dila à distância. Um calor inesperado subiu-me pelo peito. A liberdade daquela tribo do Pacífico parecia agora sussurrar-me que o que sinto não é errado, que é natural e belo, mesmo que não possa ser falado em voz alta.
Mais tarde, na saída do liceu, a cidade parecia cinzenta, e cada passo ressoava nos meus pensamentos. O vento trouxe consigo cheiros da Primavera que se aproximava, e senti um impulso de ir para aquela clareira que tantas vezes frequentamos. Quis vê-la, quisesse ou não, mesmo sabendo que seria apenas um breve instante. Depois de lanchar saí de casa sem destino apesar de ele já estar gravado no meu coração.
Ao regressar a casa, o diário abriu-se à minha frente. Hoje aprendi que a liberdade começa no olhar e no sentimento, antes de se manifestar em actos. Amanhã, levarei esta sensação comigo, como uma centelha, na esperança de que ilumine pequenos momentos e transforme o ordinário em algo inesperado.
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