Entre o choque e a contemplação

Domingo, 14 de Março de 1976

Hoje mergulhei nas páginas de Wilhelm Reich, e senti um choque profundo. As palavras feriram-me e abriram-me os olhos para aquilo que, por vezes, não ousava falar: a censura da sociedade sobre os desejos, a moral rígida que molda e reprime sentimentos que nascem de forma natural. Ao mesmo tempo, senti um despertar, uma clareza inquietante. Começo a perceber os medos e restrições que os pais da Dila carregam, como se as suas convicções fossem muralhas invisíveis, mantendo distâncias que não deveriam existir.

No entanto, consigo distinguir o que é meu e sagrado. Nunca houve, nem nunca tive, a intenção de ultrapassar limites que considero sagrados no meu coração. O cuidado, a atenção e a afeição que nutro pela Dila são a minha regra imutável. Dar-lhe a mão, simplesmente isso, é o meu maior desejo — agora, nem isso parece permitido pela complexidade silenciosa que nos rodeia.

Enquanto lia, senti a tensão entre o mundo que me impõe barreiras e o que sinto como natural. É um dia de reflexão profunda, onde a inquietação e a ternura se entrelaçam, deixando-me em silêncio, a contemplar o que é proibido e o que é inevitável: a força de um sentimento que cresce, mesmo quando o mundo insiste em negá-lo.


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