Segundas Intenções

Sábado, 13 de Março de 1976

O dia abriu-se com uma estranheza quase sussurrante, como se o vento tivesse vindo revelar segredos que ninguém me havia contado. Percebi, quase por acidente, que a atenção do Benjamim não se esgota na minha companhia; há algo nele que agora se volta para a minha irmã mais velha, a Fernanda. Não sinto ciúmes, mas uma consciência aguda da vastidão do mundo atravessa-me o peito, lembrando-me de que não sou o único a ocupar espaço na vida das pessoas que estimo.

A Dila permanece, distante mas insistente, como um eco suave que não se deixa silenciar. Tento aprisionar as minhas emoções, como se cada sentimento fosse um fio de seda que não posso deixar escapar. O dia desenrolou-se entre pensamentos dispersos, pequenas observações e uma certeza dolorosa: as relações complicam-se, e o coração nunca se permite repousar.

O Benjamim tornou-se um enigma: a amizade mantém-se, mas por detrás dela espreitam intenções que não consigo decifrar por completo. Aprendo, sem necessidade de instrução, que o afecto não é linear, que a proximidade de uns pode gerar distâncias inesperadas noutros.

E, mesmo assim, o mundo conserva o seu encanto. Os fios que me ligam à Dila resistem, frágeis mas firmes, ensinando-me que o coração jovem é feito de voltas e mistérios. Cada instante revela que, embora o afecto possa desviar-se, existe uma persistência silenciosa naquilo que é verdadeiro e profundo.

Hoje compreendo, sem precisar de palavras, que o coração é território complexo: às vezes partilhado, às vezes disputado, mas sempre aberto a descobrir os ecos inesperados das intenções alheias e a beleza persistente das emoções que não se deixam apagar.


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