Pequenas distrações contra o silêncio
Sexta-feira, 12 de Março de 1976
A manhã começou mais leve. Talvez por ser sexta-feira. Há dias que nascem com promessa, mesmo que não a cumpram. Levantei-me sem pressa, como quem já sabe que o tempo hoje é mais tolerante.
De tarde fui para o liceu. As aulas passaram depressa, ou fui eu que passei por elas. Houve risos soltos, comentários inúteis, aquela algazarra discreta que anuncia o fim da semana. Por momentos, quase me senti normal. Adolescente comum. Espécie rara em mim.
Num intervalo saí do liceu, procurei sem procurar. Olhos atentos, mas disfarçados. Não a vi nem a senti. E curiosamente isso doeu menos hoje. Talvez o cansaço esteja a ensinar-me a poupar emoções. Ou talvez seja só uma trégua, daquelas que enganam.
No regresso a casa, caminhei mais rápido. O corpo tinha vontade de chegar, a cabeça queria ficar pelo caminho. Em casa lanchei, troquei duas ou três palavras sem importância com o Benjamim e refugiei-me no meu mundo pequeno, mas controlável.
Ao fim da tarde ocupei-me com leituras e pensamentos soltos. Pensei no futuro — essa coisa distante que já começa a fazer sombra no presente. Perguntei-me, sem resposta, se algum dia estas inquietações todas vão servir para alguma coisa. Talvez sirvam apenas para me tornar menos ingénuo. Não é pouco.
À noite, escrevi. Sempre escrevo. Não por disciplina, mas por sobrevivência. As palavras não resolvem nada, mas fazem companhia.
O dia acabou com essa sensação estranha de sexta-feira: alívio misturado com vazio. Amanhã tenho aulas de manhã que é curta. E, mesmo assim, continuo à espera de qualquer coisa.
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