A ausência também ocupa espaço
Quinta-feira, 11 de Março de 1976
Acordei com a sensação estranha de já estar cansado. Não do corpo — da paciência. Há dias em que tudo pesa antes mesmo de começar.
De manhã fiz o que tinha a fazer, sem pensar muito. Pensar, às vezes, é um luxo perigoso. A cabeça insiste em voltar sempre ao mesmo sítio, como um disco riscado. E o sítio tem nome, mesmo quando finjo que não tem.
De tarde fui para o liceu. As aulas correram dentro da normalidade: professores a falar, alunos a fingir que escutam, eu algures no meio, presente por fora, ausente por dentro. Dei por mim a olhar pela janela mais vezes do que para os cadernos. Lá fora, o mundo continuava a acontecer sem mim. Injusto? Não. Apenas indiferente.
Não a vi. E a ausência dela não é um vazio limpo; é um espaço ocupado por pensamentos. É curioso como alguém pode não estar e, mesmo assim, preencher tudo.
Quando voltei para casa, o silêncio pareceu maior do que o costume. Lanchei sem fome. Sentei-me sem conforto. O tempo passou devagar, quase de propósito, como se quisesse testar-me.
À noite, refugiei-me no que me resta quando tudo falha: escrever, ler, pensar um pouco demais. Não houve grandes conclusões. Apenas a certeza simples e desconfortável de que continuo à espera de algo que não sei se virá.
O dia terminou sem ruído. E eu fiquei a pensar que crescer talvez seja isto: aprender a conviver com o que não acontece.
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