Entre a rotina e nada

Quarta-feira, 10 de Março de 1976

A manhã passou sem deixar marcas. Levantei-me, lavei-me, comi qualquer coisa. Tudo certo, tudo igual. Há dias que parecem cumprir apenas o dever de existir. Não pedem opinião.

De tarde fui para o liceu. As aulas decorreram como sempre: palavras a entrarem por um ouvido, ideias a saírem pelo outro. Não por falta de inteligência, mas por excesso de pensamentos paralelos. O corpo estava ali; a cabeça, nem sempre. Às vezes penso que aprendi mais a olhar para o vazio do que para o quadro.

Entre uma aula e outra, esperei. Não sei bem o quê. Talvez um acaso, talvez um rosto conhecido, talvez nada. A verdade é simples e nua: não a vi. E quando não a vejo, o dia fica incompleto, como uma frase sem verbo.

No regresso a casa, caminhei devagar. Não havia pressa nenhuma em chegar. Em casa lanchei, sentei-me, deixei o tempo escorrer. Pensei nela outra vez — não como desejo, mas como hábito. Já não sei onde acaba um e começa o outro.

À noite, a televisão fez o seu papel de ruído de fundo. Depois escrevi. Escrever continua a ser o sítio onde consigo pôr ordem no que não entendo.

O dia acabou assim: sem sobressaltos, sem vitórias, sem derrotas. Apenas mais um passo neste caminho adolescente que não sabe para onde vai, mas insiste em ir.

E amanhã… amanhã logo se vê.


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