As sensações instalam-se
Terça-feira, 9 de Março de 1976
Acordei com o corpo leve e a cabeça pesada, uma contradição antiga que já conheço bem. O mundo não mudou, mas eu mudei um pouco — o suficiente para notar o frio do chão ao sair da cama e o ruído distante da casa a acordar comigo.
De manhã fiz o que faço sempre. Rotinas não perguntam se estamos prontos; limitam-se a acontecer. Lavei a cara, comi qualquer coisa, pensei nela sem querer. Não é vício, é hábito do coração. O sonho ainda pairava, não como imagem, mas como sensação. Isso é pior. As imagens passam; as sensações instalam-se.
De tarde houve aulas. As horas alinharam-se umas atrás das outras, disciplinadas, indiferentes ao que eu trazia por dentro. Ouvi professores, copiei apontamentos, respondi quando fui chamado. Estive presente. Não estive inteiro. A cabeça ia e vinha, como quem espreita uma rua onde espera encontrar alguém — e não encontra.
Houve momentos em que me senti estranhamente calmo. Como se o momento tivesse dito tudo o que tinha a dizer e agora me deixasse em paz. Noutras alturas, bastava um pensamento solto para a inquietação regressar. É assim: um passo em frente, meio passo atrás. A adolescência não anda em linha recta.
Quando voltei para casa, o dia já se despedia sem grande cerimónia. Não aconteceu nada de extraordinário. E, no entanto, ficou tudo diferente. Há dias assim: pobres em factos, ricos em consequências.
À noite escrevo isto com a certeza desconfortável de que o sonho cumpriu o seu papel. Não prometeu nada, não explicou coisa nenhuma. Limitou-se a ficar.
Como o orvalho.
E isso chega para mudar tudo.
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