Um dia que começou num sonho
Segunda-feira, 8 de Março de 1976
Acordei feliz. Coisa rara numa segunda-feira. Tive um sonho com a Dila e isso bastou para mudar o tom da manhã. Os sonhos têm esta vantagem injusta: dão-nos tudo sem pedir nada em troca.
Durante uns instantes fiquei deitado, a tentar prolongar aquela sensação leve, quase infantil. Não recordo os detalhes do sonho — ficam sempre para trás como nevoeiro — mas ficou o essencial: ela estava lá. E isso chega.
A manhã passou em casa, num estado de ânimo estranho, como se o dia já tivesse valido a pena antes mesmo de começar. Andei mais solto, mais disponível. Até as pequenas rotinas pareceram menos áridas.
De tarde fui para o liceu. O caminho fez-se como sempre, mas eu ia diferente. Leva-se um sonho connosco como quem leva um segredo no bolso.
As aulas decorreram normalmente. Ouvi, escrevi, cumpri. Não foi um dia brilhante, nem precisava de o ser. O brilho tinha ficado na manhã.
Pensei na Dila várias vezes, não com dor, mas com uma ternura calma. Há dias em que o coração não exige respostas — contenta-se com sinais.
No regresso a casa, senti que a felicidade também pode ser isto: breve, discreta, quase invisível aos outros. Um estado interior que não pede explicações.
À noite, o sonho já era apenas memória, mas continuava a aquecer o dia que tinha sido. Escrevo isto com a certeza simples de quem aprendeu uma coisa:
Às vezes, um sonho chega para sustentar um dia inteiro.
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