O silêncio aprende a falar

Domingo, 7 de Março de 1976

O domingo amanheceu sem pressa. Não houve despertador a impor-se, nem mochilas à espera. Ainda assim, acordei cedo. O hábito é um animal persistente.

Passei a manhã em casa, entre pequenas actividades sem grande importância: comer, ler o jornal, olhar pela janela como quem espera sem saber o quê. O domingo tem este dom estranho de ampliar os pensamentos. Tudo soa mais alto quando o mundo abranda.

Saí um pouco. Caminhei sem destino certo, repetindo trajectos que já conheço de cor. As ruas estavam mais calmas, quase cúmplices. Não vi a Dila. E, curiosamente, não a procurei. Há dias em que o coração pede trégua, não respostas.

Pensei no futuro — não como promessa, mas como possibilidade vaga. A adolescência é este território instável onde se começa a desconfiar que a vida não vem com instruções claras. Aprende-se por tentativa, erro e silêncio.

A tarde passou devagar. O tempo escorria, não corria. Houve momentos de aborrecimento, outros de reflexão sem nome. Nada de extraordinário aconteceu, e talvez por isso o dia tenha sido honesto.

À noite, a casa fechou-se sobre si mesma. Televisão ligada, palavras poucas. Fiquei a pensar que há domingos assim: não acrescentam histórias, mas retiram ruído.

Deitei-me com a sensação estranha de ter vivido pouco e pensado muito. Amanhã há aulas. A rotina regressa. Mas este silêncio de domingo fica, como uma nota grave a sustentar a melodia dos dias seguintes.


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