Mesmo quando nada parece acontecer

Sábado, 6 de Março de 1976

O sábado traz sempre a ilusão de um intervalo, mas para mim começa cedo. As aulas são de manhã, como se o dia quisesse despachar as obrigações para depois se desinteressar de nós.

Levantei-me ainda com o corpo preso à semana. Há um cansaço que não vem do esforço, vem da repetição. Saí para o liceu com a sensação de estar a cumprir um ritual mais antigo do que eu.

As aulas passaram rápidas, talvez porque a cabeça não estava ali por inteiro. O sábado não combina bem com quadros cheios de matéria nem com explicações que pedem atenção séria. Cumpri o essencial. O resto ficou por compreender — ou por fingir que se compreendeu.

Ao sair, senti aquele alívio breve, quase infantil, de quem recupera o tempo. O dia ainda estava aberto, disponível, como um caderno em branco que não sabemos bem como preencher.

Passei a tarde sem grandes sobressaltos. Andei pelas ruas conhecidas, deixei o pensamento vaguear sem disciplina. Não vi a Dila. Talvez por isso ela tenha estado ainda mais presente. Há dias em que a ausência é a forma mais eficaz de lembrança.

O sábado acabou sem acontecimentos dignos de registo externo. Mas por dentro houve esse trabalho silencioso que ninguém vê: aceitar que já não se vive à espera de milagres diários.

As manhãs acabam. A semana há-de recomeçar. E eu sigo, aprendendo devagar que crescer também é isto — continuar, mesmo quando nada parece acontecer.


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